O fim do tráfico

17 de Novembro de 2009 Geral
O melhor governo é o que menos governa; um governo no qual prevalece o mando da maioria em todas as questões não pode ser baseado na justiça. É o que diz Henry David Thoreau em A desobediência civil, de 1848.

Droga é toda substância que causa no homem alteração em seu estado psíquico, dando-lhe sensação de mudança da realidade, mas nem por isso todas são proibidas. O álcool e o fumo são drogas aceitas que causam mais dependência e lucro que todas as drogas ilícitas juntas, sem contar os sedativos, anfetaminas, ansiolíticos e demais medicamentos a que a população tem livre acesso. Segundo a ONU, o tráfico movimenta aproximadamente US$ 400 bilhões por ano com 200 milhões de consumidores; somente o fumo movimenta US$ 350 bilhões com 1,2 bilhão de consumidores.

O consumo de drogas ilícitas aumenta entre todos os povos do planeta, mesmo com a repressão e o combate ao plantio, à manipulação e comercialização. São iniciativas que não estão funcionando mais. Por isso, o melhor é deixarmos de hipocrisia e discutirmos abertamente a descriminalização.

A exemplo do México, Uruguai, Peru, Costa Rica, Colômbia, Portugal e Holanda, entre outros países, a descriminalização das drogas, ao contrário do que os alarmistas de plantão previram, não promoveu um aumento desenfreado do consumo entre os jovens, nem as nações se transformaram em um destino de turistas em busca de entorpecentes. A experiência mundial tem mostrado que a descriminalização não aumenta nem reduz o consumo. A faixa de usuários se mantém estável, sempre perto dos 10% da população.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defende que a guerra contra as drogas é baseada na corrupção. Como as pessoas podem acreditar na democracia se a regra da lei não funciona? Os usuários deveriam ter acesso a tratamento e não à prisão. Márcio Thomaz Bastos, criminalista e ex-ministro, em entrevista recente, apoiou a descriminalização de todas as drogas no Brasil e no mundo. Até mesmo o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, defende a tese.

A maior vantagem da descriminalização é desmontar o negócio do tráfico internacional que atua em outros ramos, como armas, sequestros, roubo a bancos. Com isso, deixaríamos de ser reféns de traficantes.

Observem o Rio, onde a geografia propiciou uma situação muito peculiar, com a periferia encravada nos lugares nobres e a repressão já se mostrou extremamente mal sucedida. Veja o exemplo do confronto no Morro dos Macacos, que resultou na derrubada do helicóptero da polícia.

Estima-se que o preço da cocaína se multiplica por mil entre o produtor e o consumidor graças, justamente, a proibição. O mercado é muito lucrativo, daí tanta violência para manter e conquistar pontos de vendas. Imagine se a polícia não mais repreendesse e enquadrasse o usuário. Certamente restaria mais tempo para atingir o principal elo da corrente: o traficante.

Talvez pudéssemos até premiar os policiais pelas apreensões, digamos, com um plano de incentivo a exemplo das empresas privadas. Assim diminuiríamos também um dos principais subprodutos do trafico: a corrupção. Pense nisso. Vamos rever o paradigma sobre o combate às drogas.

Roberto Recinella é especialista em gestão do capital humano, autor do livro Eu sou o obstáculo.

Artigo publicado no Jornal do Brasil em 27/10/2009.

Fonte: Roberto Recinella

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