Estou Farto de Semideuses

05 de Janeiro de 2011 Concursos
Não é incomum depararmos com colegas consurseiros, já aprovados ou não, que se julgam acima do bem e do mal. As duas formas são tristes de se ver. Um concurseiro não aprovado, inebriado por frequentes acessos de soberba, talvez seja a forma mais tola e legítima de manifestação da própria ignorância. Afinal, o primeiro dever da inteligência é duvidar dela mesma.

Mas quando o assunto são os aprovados que se julgam acima do bem e do mal, o nosso senso crítico, por vezes, tende a sucumbir frente ao êxito do colega. Passamos a ter a falsa percepção da realidade do caminho que levou aquele aprovado ao êxito, rebaixando-nos à condição de desprovidos de inteligência ou, até mesmo, azarados. Mas talvez não seja isso.

Das duas, uma. Quando o foco é a soberba, aquele aprovado que possui esta ignóbil característica, ou menosprezará a caminhada que trilhou, acusando-a de fácil, ou pontuará os momentos de luta, elevando-se à condição de super-herói da própria existência. Nada disso é verídico, amigos, não se enganem.

Reparando alguns colegas, percebi que todos, inclusive aqueles dotados de um aparente equilíbrio, vez ou outra sucumbem. Mas é lógico, não sucumbirão sob o olhar e julgamento alheio. Enquanto montam o frágil castelo de areia que é a sua imagem, por dentro sangram compulsivamente. Derramam lágrimas todas as noites no seu único companheiro: o travesseiro. Afinal, quem nunca se pegou perguntando se esta escolha é a acertada? Quem nunca se questionou acerca do porquê de ter escolhido tão competitiva jornada, como a dos concursos? E, por fim, quem nunca enxugou as próprias lágrimas e, ao topar com o primeiro conhecido, olhou com desdém para o momento que o outro vivia, colocando-se num pedestal imaginário?

Fernando Pessoa, em "Poema em linha reta", traduz essa ideia em versos ácidos, os quais compilo a seguir:

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
[...]
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
[...]
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
[...]
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? [...]"

De outro lado, frequentemente estamos a nos referir como os maiores sofredores desse universo. Sem nenhuma visão crítica sob a própria realidade, negligenciamos a saída para o nosso problema, numa autêntica autossabotagem. E nessa roda gigante, insistimos novamente nos mesmos erros, sem buscar a solução, ainda que ela esteja debaixo do nosso próprio nariz.

Para isso há solução. A entrega é o caminho mais curto e menos frustrante. E uma boa dose de autoavaliação certamente se faz oportuna. Nem tudo que passamos é fruto da culpa alheia. Apontar o outro como responsável pelo nosso fracasso é admitir para si mesmo que a vida não passa de um barco à deriva, vagando ao capricho da correnteza. Ora, onde está o capitão desta embarcação?

E já que falei de barco, de mar, de Fernando Pessoa, oportuno que termine esse texto com uma de suas estrofes, das minhas favoritas:

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive".

Sejamos, pois, inteiros nas lutas que nos levarão à realização dos nossos sonhos.


Bruno Bernardes
Advogado e especialista em Direito Processual.
Editor do "Blog do MOCAM" (www.blogdomocam.com.br)

Fonte: Bruno Bernardes

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