A Importância dos enunciados das questões

24 de Março de 2011 Concursos
Para resolvermos corretamente uma questão, é fundamental que seu enunciado seja lido com atenção e perfeitamente entendido. Não são poucas as oportunidades em que candidatos perdem pontos preciosos por conta, unicamente, de não terem respeitado os comandos das enunciações das questões de suas provas. São clássicos os equívocos em que se solicita a indicação do item incorreto e o candidato aponta o correto, e vice-versa.
Para verificarmos a importância de os enunciados das questões serem entendidos de forma apropriada, observaremos as duas que se seguem, ambas formuladas pela banca examinadora da Fundação Getúlio Vargas, que, por sinal, está incumbida de produzir os concursos para o cargo de ICMS-RJ. Lembramos que o quinto deles para o cargo citado já está com o edital divulgado e será aplicado em março deste ano.
Aproveitaremos a oportunidade e veremos todos os itens da questão.
Recomendamos que o estudante tente resolver as duas questões antes de observar os comentário que ora se fazem presentes. Daí termos transcrito as questões integralmente, antes dos seus comentários.

1ª questão

10) GOVERNO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL - SECRETARIA DE ESTADO DE RECEITA E FINANÇAS - TECNOLOGIA DE ANÁLISE DA INFOR¬MAÇÃO - FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

Assinale a alternativa em que o termo sublinhado não exerça a mesma função que os demais:
a) Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os ame¬ricanos bêbados que o Harry's Bar expulsa.
b) Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os ame¬ricanos bêbados que o Harry's Bar expulsa.
c) Os olhos empapuçados são os mes¬mos mas o cabelo se foi e a barriga só parou de crescer porque não havia mais lugar atrás do balcão.
d) A princípio ele negou que fosse Rick.
e) De todos os bares do mundo, ela tinha que escolher logo o seu, em Casa¬blanca, para entrar.

2ª questão

12) GOVERNO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL - SECRETARIA DE ESTADO DE RECEITA E FINANÇAS - FISCAL DE RENDAS - FUNDAÇÃO GE¬TÚLIO VARGAS

As alternativas a seguir sublinhadas apresentam mesma função sintática, à exceção de uma. Assinale-a.
a) Até hoje, não surgiu nenhum sistema tão capaz de fazer crescer a economia.
b) ... visivelmente não sentem saudades do tempo em que eram obrigados a jornadas de trabalho de 12 horas.
c) O individualismo característico dessas confusas camadas intermediárias as torna muito vulneráveis à sedução das classes dominantes.
d) Tinham a convicção de que estavam na crista de uma onda que os empur¬rava inexoravelmente para adiante, para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas.
e) Tinham a convicção de que estavam na crista de uma onda que os empur¬rava inexoravelmente para adiante, para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas.


COMENTÁRIOS

Questão 10):

De início, ressaltemos que o enunciado dispõe que o candidato deve assinalar a alternativa em que existe um termo sublinhado cuja função na estrutura do fragmento textual em que surge não é a mesma que a desenvolvida pelos demais. Isto implica dizer que em quatro alternativas teremos uma idêntica função, ao passo que em um único item a função será distinta.

Vejamos, assim, todas as alternativas da primeira questão:

a) Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os ame¬ricanos bêbados que o Harry's Bar expulsa.

O vocábulo sublinhado é, morfologicamente, um pronome relativo que introduz a oração subordinada adjetiva restritiva "que pega todos os americanos bêbados". Esse pronome relativo é substituto semântico do substantivo "espelunca", presente na oração "Ele tem uma espelunca perto da Madeleine", que é principal em relação à oração adjetiva já apresentada. Como sabemos, a análise sintática de um pronome substantivo relativo - "que", "o qual" (e flexões), "quanto" (e flexões), "quem" e "onde" - é, na verdade, a análise sintática do termo que ele representa na oração adjetiva. Excluímos da lista de pronomes relativos apresentados, "cujo" e (e flexões), que são pronomes adjetivos relativos, funcionando sempre como adjuntos adnominais. Assim, ao substituirmos o pronome relativo "que" pelo vocábulo "espelunca", obteremos "espelunca pega todos os americanos bêbados". Não é difícil percebermos que "espelunca" funciona, nesta oração, como sujeito da forma verbal "pega". Igualmente, então, o pronome relativo que desempenha papel de sujeito.

b) Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os ame¬ricanos bêbados "que o Harry's Bar expulsa".

Novamente temos um pronome relativo assinalado. Agora, é introdutor da oração subordinada adjetiva restritiva "que o Harry's Bar expulsa". Desta vez, trata-se de pronome que substitui semanticamente o substantivo "americanos", presente na oração antecedente, que já fora analisada em relação à sua oração precedente como subordinada adjetiva restritiva. Como há uma oração que lhe é subordinada, é, também, principal. Esclareçamos: a oração "que pega todos os americanos bêbados" é subordinada adjetiva restritiva em relação à oração "Ele tem uma espelunca perto da Madeleine" e principal em relação à oração "que o Harry's Bar expulsa". Voltemos para o pronome relativo e sua função. Procedendo à substituição do pronome relativo que ora estudamos pelo substantivo "americanos", teremos "americanos o Harry's Bar expulsa", oração cujos termos, ao serem postos em ordem direta, indicarão "o Harry's Bar expulsa americanos". O termo "americanos" funciona como objeto direto da forma verbal "expulsa". O pronome relativo que o substitui, então, será igualmente um objeto direto.
Neste ponto de resolução da questão, o candidato já está ciente de que a correta avaliação da alternativa "c)" não só apontará duas possibilidades: sujeito ou objeto direto, como também lhe dará a resposta da questão. Estas deduções decorrem da leitura atenta do enunciado da questão: "Assinale a alternativa em que o termo sublinhado não exerça a mesma função que os demais". Assim, todas as demais alternativas apresentarão unicamente sujeitos - e a resposta da questão será a alternativa "b) - ou objetos diretos - circunstância em que a resposta da questão será o item "a".

c) Os olhos empapuçados são os mes¬mos mas o cabelo se foi e a barriga só parou de crescer porque não havia mais lugar atrás do balcão.

A divisão do período apresentado em suas orações constitutivas apresenta: ["Os olhos empapuçados são os mesmos] [mas o cabelo se foi] [e a barriga só parou de crescer] [porque não havia mais lugar atrás do balcão."]
Temos, na última oração, que se estrutura pelo verbo "haver", empregado com sentido de "existir", o vocábulo "lugar" funcionando como objeto direto, deste verbo. Estudamos em "As Últimas do Português, volume II" que o verbo "haver", empregado com sentido de "existir" é impessoal, não tem sujeito. Quanto à regência, trata-se de verbo transitivo direto, o que faz do substantivo lugar seu objeto direto.
Neste ponto, a questão já está resolvido. A resposta será, obviamente, o item "a)" que nos apresenta um sujeito. Como os itens "b)" e "c)" trouxeram-nos objetos diretos, é forçoso reconhecer, a partir da observação atenta do enunciado da questão, que os itens "d" e "e)" conterão, também, objetos diretos. Afinal, o enunciado dispõe que existe um termo sublinhado não exercendo a mesma função que os demais". Assim, o termos que se distingue de todos os demais, quanto à função que exerce é o sujeito da alternativa "a)". Observemos a importância da passagem "a mesma função que os demais", na enunciação da questão.
A título de confirmação, entretanto, analisemos os demais itens.

d) A princípio ele negou que fosse Rick.

O período fornecido divide-se em duas orações: ["A princípio ele negou][que fosse Rick".]. A banca examinadora solicita que indiquemos a função de uma oração inteira, não de um simples termo. Observemos que, na primeira oração, o sujeito da forma verbal "negou" está sendo indicado pelo pronome reto "ele". A forma verbal indicada tem regência transitiva direta, o que implica dizer que a oração "que fosse Rick" é uma subordinada substantiva objetiva direta. Exerce, evidentemente, a função de objeto direto

e) De todos os bares do mundo, ela tinha que escolher logo o seu, em Casa¬blanca, para entrar.

A divisão do período presente nesta alternativa apontará ["De todos os bares do mundo, ela tinha de escolher logo o seu] [para entrar.". Na primeira oração, encontramos a locução verbal "tinha de escolher", cujo verbo principal ("escolher") é transitivo direto. Assim, a passagem sublinhada, que apresenta uma elipse do substantivo "bar" - "De todos os bares do mundo, ela tinha de escolher logo o seu [bar]" -, funciona como objeto direto da locução verbal assinalada.

Gabarito da questão 10: A

Questão 12)

De início, confrontemos o presente enunciado com o encontrado na questão anteriormente analisada. Naquela, havia uma clara indicação de que encontraríamos quatro funções idênticas e uma diferente delas. Agora, temos a indicação de que uma função sintática será diferente de outras que apresentam mesma função sintática. Notemos como é diferente dizer-se o que está sublinhado do que foi dito na questão anterior: "a mesma função". A presença do artigo definido "a" na enunciação da questão anterior era claramente alusiva à existência de uma duas únicas funções presentes na questão, sendo que uma delas repetia-se quatro vezes, enquanto outra - a resposta, evidentemente - surgiria uma única vez.
Agora, diz-se que há uma alternativa que trará função sintática distinta de outras que apresentam mesma função. Isso significa dizer que as demais poderão, sem dúvida, apresentar uma única função sintática. No entanto, não necessariamente apresentarão uma única função sintática. O que se diz é que há uma alternativa com função sintática que não se repete em outra alternativa, e não que, obrigatoriamente, os demais itens apresentarão uma só função sintática.
Vejamos cada uma das alternativas da questão:

a) Até hoje, não surgiu nenhum sistema tão capaz de fazer crescer a economia.

Vejamos a análise do período contido neste item. ["Até hoje, não surgiu nenhum sistema tão capaz] [de fazer crescer a economia".] Assinalou-se uma oração reduzida de infinitivo ligada por preposição a um adjetivo ("capaz"). Como pudemos ler em "As Últimas do Português, volume IV", qualquer termo ou oração ligada por preposição a adjetivo será complemento nominal. A oração será, então, analisada como subordinada substantiva completiva nominal, reduzida de infinitivo.

b) ... visivelmente não sentem saudades do tempo em que eram obrigados a jornadas de trabalho de 12 horas.

A análise do período apontará as seguintes orações; ["... visivelmente não sentem saudades do tempo] [em que eram obrigados a jornadas de trabalho de 12 horas."]. A segunda oração é uma subordinada adjetiva restritiva que se organiza em torno da forma verbal composta "eram obrigados". O verbo principal desta forma verbal é "obrigar" - empregado no particípio - e tem regência transitiva indireta. Deste modo, a expressão sublinhada funciona como objeto indireto.
Se nos reportarmos ao enunciado da questão anterior, veremos que, neste ponto, estaríamos convictos de que nas alternativas seguintes só encontraríamos - na questão que ora estudamos - complementos nominais ou objetos indiretos. O mesmo não é permitido, contudo, inferir a partir do enunciado da questão que ora estudamos, como comprovaremos na seqüência.

c) O individualismo característico dessas confusas camadas intermediárias as torna muito vulneráveis à sedução das classes dominantes.

Temos, neste item, um período simples, apresentando uma única oração que denominaremos oração absoluta. Nele, deveremos proceder à análise do termo "das classes dominantes". Trata-se de uma expressão preposicionada e presa ao substantivo abstrato "sedução". Novamente, recordemos lição contida em "As Últimas do Português, volume IV": expressões ligadas por preposição a substantivos abstratos podem ser complementos nominais - quando apresentam valor semântico passivo - ou adjetivos nominais - quando apresentam valor semântico ativo. No volume indicado, o estudante encontrará as explicações para as afirmativas ora feitas acerca destas funções, tradicionais dificuldades no estudo de Análise Sintática.
Voltando à presente alternativa, observaremos que a expressão "das classes dominantes" tem, nesta passagem valor semântico tradutor de agente de ação. Com efeito, as classes dominantes exercem a sedução e não, contrariamente, sofrem a sedução. Assim, analisaremos a expressão "das classes dominantes" como adjunto adnominal.
Agora, temos a certeza de que os itens seguintes só poderão apresentar um complemento nominal, um objeto indireto ou, ainda, um adjunto adnominal. Sabemos, ainda, que a resposta da questão só virá com a análise da última alternativa, diferentemente da questão anteriormente vista, em que a resposta surgiu na análise da alternativa "c)".

d) Tinham a convicção de que estavam na crista de uma onda que os empur¬rava inexoravelmente para adiante, para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas.

Vejamos, inicialmente, a divisão do período em orações: [Tinham a convicção] [de que estavam na crista de uma onda] [que os empur¬rava inexoravelmente para adiante,] [para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas".].
Desejamos saber a função do termo "das relações de produção", presente na oração subordinada adverbial final "para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas", onde aparece ligada por preposição ao substantivo abstrato "transformação". Desta vez, notamos valor passivo para a expressão que desejamos analisar. Efetivamente, "as relações de produção" são transformadas, e não, contrariamente, representam o agente da transformação. Tendo valor semântico passivo, a expressão desempenha papel sintático de complemento nominal.
Agora, podemos afirmar que a alternativa seguinte apresentará, com certeza, um objeto indireto ou um adjunto adnominal. Isto porque, já havendo dois complementos nominais - "a)" e "d) -, para que a questão tenha resposta, deverá haver, obrigatoriamente, uma função entre as duas citadas anteriormente que não se repetirá. Teremos, então, dois complementos nominais, dois adjuntos adnominais e um objeto indireto, o que fará da alternativa "b)" a resposta da questão, ou, ainda, dois complementos nominais, dois objetos indiretos e um adjunto adnominal, e a resposta da questão será a alternativa "c)". Assim, o enunciado da questão estará atendido: teremos uma alternativa com função diferente das encontradas nas demais, já que as mesmas funções se repetem em dois pares de alternativas.

e) Tinham a convicção de que estavam na crista de uma onda que os empur¬rava inexoravelmente para adiante, para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas.

O período é o mesmo analisado na alternativa anterior. Vamos repeti-lo: [Tinham a convicção] [de que estavam na crista de uma onda] [que os empur¬rava inexoravelmente para adiante,] [para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas".].
Agora, deseja-se saber a função da expressão "das forças produtivas", que surge ligada por preposição ao substantivo "crescimento". Mais uma vez percebemos, semelhantemente ao que vimos na alternativa "c)", que a expressão analisada desempenha, semanticamente, valor ativo relativamente ao substantivo "crescimento". Trata-se, assim, de outro adjunto adnominal.
Deste modo, a questão apresentou-nos dois complementos nominais, dois adjuntos adnominais e um objeto indireto. Atendendo-se ao comando que provém de seu enunciado, que dispõe que "as alternativas a seguir sublinhadas apresentam mesma função sintática, à exceção de uma", apontaremos a resposta da questão no item "b)".

Gabarito da questão 12: B

CONCLUSÃO:

Do exposto, cremos ter contribuído para alertar os candidatos com respeito aos enunciados das questões, seus perigos implícitos e as vantagens que deles podem ser retiradas.
No mais, resta-nos repetir que apenas a exercitação feita de modo intenso e continuado será capaz de dar-lhes segurança na resolução das provas que resolverem enfrentar.
Bons estudos, então.

Décio Sena há 30 anos é professor de Língua Portuguesa e prepara candidatos para concursos públicos para os mais diferentes certames.

Fonte: Décio Sena

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