Uma pedra (de crack) no caminho

12 de Novembro de 2009 Geral
Uma pedra (de crack) no caminho
Nem mesmo a violência que eclode da tela da minha televisão, leio diariamente nos jornais e revistas ou ouço nos noticiários das rádios me deixou insensível a ponto de não reconhecer a frustração de um pai diante da permissividade causada pelas drogas ao filho dele. Tem-se o hábito de acreditar que dor de barriga só dá nos outros. Não é bem assim. Aquele pai sente na pele a perda do filho para a droga, a perda da namorada do filho assassinada pelo próprio e, provavelmente no mesmo patamar, a sua impotência, como pai, em primar pela manutenção dos valores morais em sua família. Imagino o quanto, neste momento, ele deve se sentir fracassado não só como pai, mas como ser social e, sobretudo, como ser humano.

O crack é uma droga composta por pasta básica de cocaína sólida em forma de cristal (pedras). Passou a substituir o uso de cocaína aplicada na veia, praticamente extinto no Brasil, depois da chegada do crack. Esse entorpecente provoca efeito semelhante ao outro, sendo tão potente quanto à cocaína injetada. A facilidade de consumo favoreceu a sua disseminação, já que não necessita de seringa - basta um "cachimbo", na maioria das vezes improvisado, como uma lata de alumínio furada.

Poderia relacionar aqui inúmeros danos provocados pelo crack ao organismo, mas vou resumir: o crack eleva a temperatura corporal, podendo levar o usuário a um acidente vascular cerebral ou à destruição de neurônios, provocando no dependente a degeneração dos músculos do corpo - o que chamamos de rabdomiólise. Isso provoca uma aparência esquelética ao indivíduo: ossos da face salientes, braços e pernas finos e costelas aparentes. O usuário torna-se completamente dependente em pouco tempo, já a partir da segunda ingestão.

É uma destruição da saúde, sim, mas também do convívio social. A potente dependência provocada pelo crack frequentemente leva o usuário à prática de delitos, como furtos de dinheiro e de objetos, sobretudo eletrodomésticos, que muitas vezes começam em casa. Recentes estudos relacionam a entrada desta droga nas metrópoles ao aumento da criminalidade e da prostituição entre os jovens, com a finalidade de financiar o vício - vale lembrar que entre as prostitutas mais jovens encontra-se o nicho de maior crescimento da Aids e de outras DSTs no país.

Embora a sociedade brasileira veja com satisfação o crescimento da aplicação rígida da chamada Lei Seca, não há repressão tão eficiente quanto essa em relação ao tráfico de entorpecentes.Todos investimentos foram incapazes de diminuir o problema das drogas ilícitas por inúmeros motivos. Um deles seria repensar o chamado "combate ao crime" pela execução da terminologia "controle".

E àquele pai, que saiu do anonimato para as manchetes policiais, somam-se o menino de 12 anos preso com 139 pedras de crack em Maceió e o prefeito mineiro flagrado com a droga e visivelmente transtornado. Todos são vítimas e algozes de histórias como a de milhões de outras pessoas que não ganham destaque na imprensa brasileira nem mundial, e que em pouco tempo se transformam apenas em estatísticas, sem nome ou sobrenome. Apenas números.

*Roger Ancillottti é médico legista, professor de medicina legal e autor do livro Medicina Legalà luz do Direito Penal e Processual.

Artigo publicado no Jornal do Brasil em 29/10/2009.

Fonte: Roger Ancillotti

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